O retorno dos psicodélicos: utopias e distopias huxleyanas no século XXI

Os psicodélicos estão de volta. Capas de revista, programas de televisão e a criação de sociedades científicas atestam um renovado interesse no tema. Na realidade, os alucinógenos nunca nos deixaram, com seu uso ancestral sendo bem documentado em uma variedade de culturas. No entanto, após o consumo recreativo extensivo no contexto da contracultura na década de 60, diversos governos proibiram substâncias como LSD, psilocibina e mescalina. Depois de décadas de silêncio, os últimos anos têm observado um aumento no número de pesquisas sobre o tema, bem como um crescimento no número de usuários, observado nos últimos levantamentos globais.

Como alguém que faz parte dos esforços científicos sobre o potencial benéfico dessas substâncias, que vai desde o uso terapêutico em casos de depressão resistente ao tratamento até uma maior comunhão com a natureza, me pergunto o que pode representar essa retomada. Diante de um mundo com desafios como o ressurgimento do fascismo, níveis alarmantes de desigualdade e conflitos identitários, qual o impacto que essas poderosas ferramentas podem ter em nossos cenários futuros?

 

Utopia
O termo psicodélico já carrega consigo uma promessa. A palavra, cunhada pelo psiquiatra Humphry Osmond, vem do grego, psyché (alma), e délos (revelar, manifestar). Psicodélicos teriam então a propriedade de nos revelar os conteúdos de nossa mente. Essas substâncias são também chamadas de enteógenos (éntheos: em Deus, inspirado divinamente; genésthai: vir a ser, nascer), em uma perspectiva religiosa, considerando seu uso litúrgico em diferentes culturas. Essa última denominação afasta-se do significado mais recreativo que tipicamente atribuímos às drogas, privilegiando o potencial de desenvolvimento pessoal e espiritual dessas substâncias.

O uso sacerdotal de psicodélicos é extensamente documentado, com diferentes culturas utilizando as espécies disponíveis de acordo com as condições geográficas locais. Assim, na Mesoamérica, variedades de cogumelos do gênero Psilocibe (cujo princípio ativo é a psilocibina) têm seu uso registrado até 1000 anos a.C.; a mescalina é encontrada no peiote, no México, e no cactus de São Pedro, nos Andes; na Sibéria, os xamãs contam apenas com a espécie nativa de cogumelos Amanita muscaria, consumida diretamente ou através da carne ou da urina de renas intoxicadas; na África, a ibogaína é obtida de plantas da família Apocynaceae; na selva amazônica, a combinação da Banisteriopsis caapi e da Psychotria viridis na ayahuasca ou yagé permite o consumo de DMT. A humanidade descobriu, seja por ensaio e erro ou orientada por propriedades das espécies, formas de extrair substâncias alteradoras de consciência em contextos ambientais absolutamente diversos. Claramente, a transcendência oferecida por essas substâncias era entendida como fundamental para a experiência humana.

A retomada de pesquisas na área tem indicado uma série de benefícios de saúde. Por exemplo, o LSD tem um uso histórico, ainda que com efeitos modestos, no tratamento do alcoolismo. Evidências iniciais sugerem que casos de depressão resistentes à medicação parecem responder bem à psilocibina, com efeitos duradouros no estado de humor dos pacientes. A psilocibina e o LSD também têm sido empregados em casos de pacientes com câncer terminal, como um tratamento paliativo para a ansiedade diante da morte, com efeitos positivos. É possível que parte desses efeitos terapêuticos, sobretudo nos últimos dois casos, refira-se ao fenômeno de dissolução do ego propiciado por essas substâncias. Ao nos livrarmos da opressão da nossa autorreferência, da supervalorização do nosso ego, nossa relação com a vida e com sua inevitável finitude são alteradas.

Além disso, o uso de psicodélicos está associado com posturas mais tolerantes em relação à novidade e aos outros. Por exemplo, um estudo sugere que o uso de psilocibina promove maior abertura à experiência, com este efeito de reestruturação da personalidade persistindo meses após o consumo da substância. Igualmente, usuários de psilocibina têm menor adesão a ideias políticas extremistas, como o fascismo. Em que pese a dificuldade em estabelecer a direção da causalidade nesse último caso (seriam as pessoas menos fascistas mais propensas ao uso de psilocibina, ou o contrário?), estes estudos sugerem, de maneira encorajadora, a possibilidade de construção de sociedades mais tolerantes a partir do consumo de psicodélicos[1].

Uma das maiores contribuições dessas substâncias está na forma como elas podem promover outra relação com a natureza. Dados empíricos sugerem que o consumo de psicodélicos clássicos (psilocibina, mescalina, LSD) associa-se com maior contato com a natureza e comportamentos pró-ambientais. Vivemos dentro de um sistema produtivo que opera pela lógica do crescimento e da expansão, em um planeta com recursos limitados. A dissociação do homem em relação ao mundo natural não apenas é uma fonte de adoecimento, como pode levar, no limite, à extinção da espécie.

Colocando esse maior contato com a natureza lado a lado com a dissolução do ego e com uma maior tolerância ao novo e ao diferente, podemos entrever formas de organização humanas mais saudáveis. Talvez aí esteja o potencial para um retorno, sem romantismo ou nostalgia, para sociedades mais marcadas pela parceria entre os sexos, com o homem menos divorciado da natureza e de seus ciclos naturais de vida e morte. Um anarcoprimitivismo igualitário, representando o religare buscado pelo xamã em seu uso original das espécies que contém essas substâncias?

 

Distopia
Há, no entanto, um aspecto inquietante por trás dos novos estudos. Como acontece com muitas ferramentas que inicialmente traziam contestação e libertação, a possibilidade de captura dos psicodélicos pelo sistema é real. Em particular, duas ameaças concretas despontam: o uso de psicodélicos como mecanismos de aumento da produtividade e a cooptação dos psicodélicos para uma crescente aversão à realidade.

Sobre a primeira, é notável como grandes investidores aderiram à causa da pesquisa sobre psicodélicos. Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, é um financiador indireto da Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies (MAPS). A MAPS é uma das instituições de caridade listadas no Amazon Smile, site filantrópico da Amazon, que aloca uma pequena fração do preço dos produtos para doações (provavelmente dedutíveis dos impostos que a Amazon tenta não pagar posteriormente). Que Bezos tenha interesse, mesmo que cursório e menor, sobre o tema, é perturbador.

Um exemplo dessa captura pelo capitalismo é o uso crescente de microdoses dentro das empresas do Vale do Silício. O projeto não poderia ser mais equivocado: tomar ácido para aumentar a produtividade. Note que, aqui, o objetivo não é a experiência psicodélica completa, mas apenas a utilização da menor dose possível que tenha benefícios para os usuários, sem interromper sua funcionalidade. Busca-se um Adderall para a criatividade. Que cenário catastrófico! Hipsters criados a leite com pera, leitores de Ayn Rand, tomando microdoses de ácido para programarem melhor os softwares que invadem a nossa privacidade e nos transformam em produtos[2].

Terence McKenna explora como o sistema capitalista dominante, de caráter masculino, apoia-se excessivamente em estimulantes e narcóticos. Assim, o imperialismo traz para a Europa o açucar, café, chás e chocolate como drogas de caráter excitatório, apropriadas para o contexto da Revolução Industrial. Por outro lado, a cannabis e o ópio, certamente não as melhores substâncias para o chão da fábrica, são vistas como ameaças estrangeiras que devem ser extirpadas[3]. Os psicodélicos oferecem a dissolução do ego como maior ferramenta terapêutica. Será que viveremos para ver sua captura pela capitalismo sob a forma de meros narcóticos ou drogas recreativas menores?

No contexto atual, talvez a mais importante das ameaças seja a absorção dos psicodélicos em uma cultura que pratica e estimula intensamente a aversão à realidade. Política pós-verdade, fake news, mídias sociais. Trocamos o contato real por simulacros e, guiados por algoritmos para facilitar nossas escolhas, só nos deparamos com o espelho que não achamos feio. Convergem nesse panorama as consequências da filosofia pós-estruturalista, com seu improdutivo relativismo epistemológico e desprezo pelo conceito de realidade, e o evidente enfraquecimento do tecido social e da democracia representativa, através do ressurgimento de discursos totalitaristas, do cerceamento da liberdade de expressão e do direito à privacidade, do recrudescimento da política da identidade e da cultura de vigilância dos vizinhos.

Considerando isso, não é coincidência que, no início da década de 90, as primeiras exibições de tecnologias de cyberespaço e realidade virtual foram comparadas com os acid tests[4], como descrito brilhantemente no documentário “Hypernormalisation”, de Adam Curtis. A ruptura com a realidade dos psicodélicos encontra um paralelo no divórcio promovido pelos espaços virtuais. Agora que finalmente estamos tornando realidade a crença de alguns povos tradicionais de que a câmera captura a alma (The Orange Juice, “Salmon fishing in New York”), nossas imagens editadas transformam-se na moeda corrente de troca social.

Ainda, temos em nossa sociedade, lado a lado, o estigma em relação à saúde mental e a banalização do uso de medicações. A patologização do social caminha, talvez de maneira não tão paradoxal, junto de uma imensa dificuldade em reconhecer nosso direito em termos dificuldades emocionais e adoecermos de quem somos – pessoas morrem por tomar mais ou menos medicação do que deveriam. A cultura da medicação (abriu alguma farmácia perto da sua casa recentemente?) pode se encontrar mais adiante com a legalização de diversas substâncias, levando a uma sanitização transhumana de nossos sofrimentos.

Não será surpreendente se o que era proibido em uma geração acabe tornando-se compulsório em outra. Treinamentos em metacognição e autoconhecimento guiados pelo uso de psicodélicos, em doses que sejam fortes o suficiente para promover uma vaga sensação de liberdade e prazer, ou meramente um aumento em nossa criatividade, mas fracas o suficiente para que não propiciem a disrupção da ordem estabelecida. É a realização do que J. G. Ballard descreveu como os sistemas totalitários do futuro: obsequiosos e subservientes, como uma aeromoça que nos fornece bebidas e ajusta nossa TV, de forma que não nos preocupemos com o destino do avião ou se há um piloto a bordo.

 

Huxley, psicodélicos e duas visões de futuro
Parte desse cenário distópico é descrito magistralmente por Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo. Huxley nasceu em uma tradicional família de acadêmicos, com seu avô, T. H. Huxley, notabilizando-se como o buldogue de Darwin. Sua formação mesclava aristocrático academicismo, tendo estudado em Eton e graduando-se em literatura em Oxford, com marcantes experiências pessoais, como uma doença que o deixou cego por dois anos e o suicídio de seu irmão. Huxley tinha experiência de primeira mão com psicodélicos, sendo autor de dois influentes ensaios, “As portas da percepção”[5] e “Céu e inferno”, descrevendo seu contato com a mescalina, mediado por Humphry Osmond, na década de 50. O título dos ensaios vem do poema de William Blake, “O casamento do céu com o inferno”, no qual ele descreve as limitações perceptivas da humanidade. É do poema a célebre citação de Blake, que nos diz que: “Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria ao homem como é, Infinito. Pois o homem se fechou, até ver todas as coisas pelas estreitas frestas de sua caverna”.

No entanto, é duas décadas antes desse contexto de experimentação pessoal que Huxley escreve “Admirável mundo novo”, um dos mais importantes romances distópicos do século XX, ao lado de “1984”, de George Orwell[6]. Em “Admirável...”, uma sociedade altamente estratificada, na qual a genética e o condicionamento determinam a capacidade de cada cidadão, é mantida sob controle a partir de uma droga, o soma[7]. Aqui, o uso de psicodélicos é uma forma de pacificação social, com a droga sendo dispensada de forma compulsória através de reservatórios, sendo usada pela polícia para controlar as multidões e servindo como uma forma de evitar emoções negativas. “Admirável...” traz ainda o contraste entre a vida sanitizada do Estado Mundial e a autenticidade da reserva dos selvagens, onde as pessoas ainda nascem e morrem (e se drogam, com peiote) através de métodos naturais.

O setting de uso de psicodélicos não podia ser diferente em “A Ilha” (Island, 1962), último romance e resposta utópica que Huxley dá para sua visão mais sombria de futuro. O uso da droga se dá em um contexto espiritual, com a moksha[8] sendo um enteógeno utilizado como droga de iniciação. A sociedade em “A Ilha” é igualitária e horizontal, em contraposição à estratificação de “Admirável...”, sendo marcada pela ausência de materialismo e por um budismo benigno. Seus cidadãos nutrem uma atitude de aceitação em relação à morte e às emoções negativas, entendendo-as como parte inevitável da vida. As crianças são educadas por múltiplas famílias, sendo instruídas para viver no momento, com os pássaros locais repetindo pela mata as palavras, aprendidas com os homens, “atenção” e “karuna” (compaixão).

Não é coincidência que no totalitarismo de “Admirável...”, haja a trivialização do sexo, a remoção de seu caráter disruptivo a partir de sua mecanização. Já em “A ilha”, o sexo livre é de outra natureza, com a sociedade estruturando-se em torno do poliamor e da iniciação sexual dos jovens por pessoas mais experientes. Em “Admirável...”, o sexo é hedonismo, ao passo que em “A ilha”, o amor não é posse. Diante de Will, o cínico jornalista que, em visita à ilha, confessa sua compulsão sexual, a compassiva Susila diz que “... um viciado em sexo é também um viciado em pessoas. Em outras palavras, eles são amantes.” Em 1932, com Foucault ainda na classe de alfabetização, Huxley sugere que o controle do sexo é uma forma privilegiada de manipulação social e domínio sobre os corpos, com o texto de 1962 propondo a liberdade sexual e social como aspectos indivisíveis.

 

Coda
Huxley escreve “A Ilha” como uma terceira opção para o Selvagem, protagonista de “Admirável...”. Este fica premido entre a distopia sanitizada e anestesiada do Estado Mundial e o retorno para a reserva e a vida primitiva. Encurralado entre estas duas pretensas utopias (na realidade modalidades, respectivamente, de distopia e nostalgia), termina suicidando-se – o ato extremo de quem não encontra alternativa. Huxley sugere que “A Ilha” oferece a possibilidade de sanidade, com uma sociedade cooperativa, de política descentralizada e, crucialmente, com a ciência servindo ao homem, e não com o homem escravizado pela tecnologia. A moral de “A Ilha” seria guiada por um “Utilitarismo Maior”, “o conhecimento unitário” de um “Tao ou Logos imanente”, coalescendo em um “Brahman transcendente”. É essa relação com o conhecimento que Will, já denunciando o cansaço com seu cinismo, tenta deplorar, ao dizer que não quer ser ainda mais consciente. Não quer ser mais consciente sobre a morte de sua tia por câncer, mais consciente das desigualdades sociais das quais é beneficiário, de visões hediondas, cheiros abomináveis e – até mesmo – cheiros deliciosos.

Que Huxley tenha colocado drogas no centro de suas visões de futuro é apenas mais um atestado de sua presciência. Substâncias nos ensinam, de maneira inequívoca, o caráter monista da relação mente x cérebro. Sua atuação direta nos sistemas neurotransmissores, alterando suas quantidades e interferindo na transmissão sináptica, promovem alterações de pensamento, humor e percepção. É o próprio Huxley que nos lembra que “o cérebro secreta ideias como o fígado secreta bile”. As consequências desse fato neural não são triviais. A qualidade de nossas ideias, o tipo de relações que estabelecemos e a sociedade que construímos estão intimamente ligadas com as substâncias que consumimos. Não é coincidência, então, que o controle do que podemos/devemos consumir seja um aspecto tão central de diferentes formas de governo.

Psicodélicos são substâncias poderosas, capazes de reestruturar nossa forma de pensar. O uso que faremos deles no futuro próximo pode determinar as sociedades em que viveremos. Não é necessário alarmismo, mas certamente estamos em um momento em que atenção e compaixão são bem-vindos.

 


O autor agradece aos organizadores do Festival da Primavera da PUC-Rio, pela oportunidade de apresentar uma primeira versão do texto, e aos membros do grupo de pesquisa, em particular à Bheatrix Bienemann, pelos debates sobre alguns dos temas discutidos aqui.


[1] Nas palavras do comediante político americano, Bill Maher, a psilocibina seria conhecida, no jargão farmacêutico, como uma “asshole inhibitor”.
[2] É a repetição como farsa da tragédia de seu grande guru Steve Jobs, que creditava ao seu uso de LSD na década de 70a criatividade e o senso de propósito de seus produtos, que levaram... ao IPhone.
[3] É marcante como nos EUA essas drogas foram vinculadas, respectivamente, aos imigrantes mexicanos e chineses. A cocaína, por sua vez, seria a droga do negro, ameaçando a moral branca americana. Considerando esse estereótipo, é tragicamente irônico que o crack tenha sido usado para destruir a resistência política em guetos afro-americanos a partir da década de 70.
[4] Os acid tests eram eventos promovidos pelo escritor Ken Kesey na década de 60 em São Franciso, durante os quais os convidados tomavam LSD, àquela época legal, em um ambiente composto por tintas fluorescentes, luz negra e ao som de performances ao vivo de Grateful dead. Ken Kesey notabilizou-se, posteriormente, por escrever “Um estranho no ninho”, sobre a experiência de alienação em instituições asilares. É também personagem em um dos seminais textos do Novo Jornalismo, por Tom Wolfe.
[5] Inspiração para Jim Morrison, que resolve batizar sua banda de “The Doors”.
[6] Para comparações diretas entre as duas obras, recomenda-se “Amusing ourselves to death”, de Neil Postman. De maneira sintética, pode-se dizer, baseado na leitura do último, que Orwell traz a distopia do medo e do controle estatal, ao passo que Huxley descreve a distopia do prazer e da falsa sensação de liberdade.
[7] A escolha da palavra não é acidental. Soma é a mítica droga referenciada nos Vedas. Infelizmente não temos uma hipótese consistente para qual era a substância real por trás do soma. Os candidatos mais frequentes, baseados em especulação e poucos dados empíricos, são plantas do gênero Ephedra, cogumelos, papoula, cannabis e hidromel.
[8] Novamente o nome tem uma grande carga de significado. No Hinduísmo e Budismo, moksha é a liberação de Samsara.